18 Abril, 2005

Desaculturado

Acho curioso, e até me aborrece um bocado, a importância que se dá ao facto de uma pessoa ler muito ou pouco, como se isso fosse um denominador comum de personalidade, forma de estar, educação ou interesse.

Tudo bem, estou disposto a admitir que, usado na medida certa, pode até ser um indicador. Mas não exageremos.

Desde que ando nestas coisas dos blogs (e mesmo antes), já ouvi e li várias expressões do género: “não fazia ideia que escrevias tão bem”; “ainda mais uma pessoa que lê tão pouco”; “não imaginava, a sério”.

É óbvio que recebo esses elogios de beiço babado mas fica-me sempre uma coisinha aqui a moer. Porque raio é que uma pessoa que lê pouco, gosta de vestir de forma casual e calçar sapatilhas, diz mais asneiras do que seria desejado, que faz surf sempre que pode, que faz palhaçadas em reuniões de trabalho chatas, etc e tal… não há-de escrever qualquer coisita de vez em quando!?

Pois bem. Dado o manifesto interesse do tema e para desmistificar e, claro, provocar um bocadinho os meus fiéis (5 ou 6) leitores, cá vai a lista de actividades desaculturais do Kwan.

Livros

Leio pouco. Muito pouco. E deixo quase todos a meio. Acho que se podem contar pelos dedos de duas mãos e dois pés os livros que li até ao fim por iniciativa própria. Deixa-me lá olhar para a estante para ver se me lembro de alguns:

Loosing my Virginity - Richard Branson
Uma História Suja - Luís Sepúlveda
Sul – Miguel Sousa Tavares
A Utopia – Tomas More (era obrigatório, mas li com gosto)
Pedro Caldeira, Tempo de ser claro – Manuela de Sousa Rama
O Aventureiro da Bolsa– Nick Leeson
Milionário Acidental Steve Jobs e a Aplle – Lee Butcher
A Era do Paradoxo – Charles Handy
Patagónia Express – Luís Sepúlveda
Mundo do fim do mundo – Luís Sepúlveda
Rumo ao Futuro – Bill Gates
A publicidade segundo o meu Tio Olavo – Edson Athayde
Memórias de um Economista – Peter F. Drucker
Muitas Vidas, Muitos Mestres – Brian L. Weiss
O Velho e o Mar – Ernest Hemingway
O velho que lia romances de amor – Luís Sepúlveda
As rosas de Atacama – Luís Sepúlveda
Notas de Viaje – Ernesto Guevara

Para além dos de leitura “obrigatória” durante a escola e faculdade, garanto que não foram muitos mais que estes!

Jornais

Não compro nem leio nenhum jornal. Nunca! Nem Público nem Expresso, nem nada dessas coisas evoluídas.

No último ano da faculdade, comprava o Expresso por causa dos anúncios de emprego mas, honestamente, achava aquilo muito maçudo e acabava por não ler quase nada. E era caro com o raio!

Hoje em dia, só leio um jornal em consultórios médicos, cafés, comboios, aviões e essas coisas assim. No fundo, quando não há mais nada para fazer :).

Revistas

Só compro uma regularmente, a SurfPortugal, que, como imaginam, apesar de alguns textos interessantes, não tem nada assim de muito erudito.

Também na altura da faculdade, cheguei a assinar aquelas Exames e Fortunas, que o meu professor de Informática de Gestão insistia em chamar de “Olá dos negócios”. E são mesmo.

Mais recentemente, novamente o Expresso, por causa das crónicas “À Volta do Mundo por Terra e Mar” na Única. Mas ainda assim, após algumas semanas, arranjei uma fornecedora (leitora compulsiva de jornais e revistas) que recortava estas páginas e entregava-me religiosamente à segunda-feira. Obrigado Sofia!

Hoje em dia, leio a Visão às vezes, quando vou a casa da minha irmã, e pouco mais.

Cinema

Gosto de ir ao cinema, mas nunca compro pipocas! Particularmente, gosto de filmes centrados numa personagem ou baseados em histórias verídicas (ex: Dança com Lobos, Clube dos Poetas Mortos, Perfume de Mulher, Braveheart, Tróia, Gladiator, etc), mas também gosto do típico filmezinho de acção e algumas comédias românticas.

Pelo contrário, tendo a não gostar de filmes pseudo-intelectuais que ninguém percebe, porque realmente não os percebo... e de filmes portugueses, porque acho a maioria das interpretações francamente más (e porque quero vingar-me do Ministério da Cultura pelos subsídios absurdos que tem dado a alguns projectos neste campo). Excepção feita, claro está, aos antigos do Vasco Santana e aos mais recentes Balas e Bolinhos, que de tão estúpidos e simples que são me fazem rir à gargalhada.

Televisão

Na televisão, vejo o que estiver a dar. Sou adepto do zapping e consigo acompanhar três canais em simultâneo, o que me poupa uma data de tempo.

Vi o primeiro Big Brother e muitas telenovelas brasileiras (que, de facto, têm uma qualidade muito boa) mas, nos últimos anos, deixei-me dessas coisas.

Hoje em dia, para além dos jogos da Selecção (nos outros adormeço), vejo notícias, sitcoms, alguns documentários e programas debate (que normalmente me irritam e me fazem passar a noite a tentar ligar para lá a mandar uns bitaites).

Teatro

Xiii… em toda a minha vida fui umas 3 ou 4 vezes. Não porque não goste mas, maioritariamente, por preguiça de procurar. Sempre que me desafiaram, fui! :) E gostei. Muito.

Mas dêem-me uma boa comédia. Não me venham com peças dramáticas e intelectuais. Já disse que essas não percebo!

Pintura

Para terem uma ideia do meu grau de conhecimento nesta área, a minha pintora preferida é a minha mãe, que começou a pintar há uns 5 anos e a maioria dos quadros que fez são pinturas de fotos ou imagens de revistas. Em minha casa, não tenho nada que não seja dela!

Gosto de ver, olhar e dizer se gosto ou não. Mais nada. Nem sequer me atrevo a tecer algum tipo de comentário.

Música

Hoje em dia há tantos estilos e géneros com nomes esquisitos, que nem sei dizer bem que géneros gosto. Podem dar uma vista de olhos aí na barra lateral.

O meu processo de descoberta de novas músicas (como já deve ser óbvio, não compro nenhuma revista da especialidade) é muito simples.

Filmes de surf: muitas vezes antes entrarem nos circuitos comerciais, como por exemplo, Pearl Jam, Smashing Pumpkins, Janes Adiction, Jack Johnson e outros.

Rádio: O método tradicional. Agora, até há serviços em que se manda uma mensagem escrita para um número e eles respondem com a música que está a tocar.

Carros e casas dos amigos: Tenho amigos que percebem alguma coisa de música e vão-me dando umas dicas ou emprestando uns CDs.

SurfPortugal: Tem uma rubrica de música, onde dão uma breve descrição de grupos ou discos novos.

Blogs: Já começa a ser hábito os autores decorarem o blog com uma música de fundo ou fazer alguns posts sobre o tema.

Depois, é só ir à net “sacá-las” ou ir passar a noite à Fnac!

E pronto, o texto já vai longo e eu tenho mais que fazer (tipo, pôr parafina na prancha, lavar o fato, ler a entrevista do Tinguinha na SurfPortugal), por isso, deixo-vos com uma frase de um economista (pasme-se!), já anteriormente publicada noutro post.

"Nunca encontrei uma única pessoa desinteressante. Por mais conformistas, convencionais ou estúpidas que sejam, as pessoas tornam-se fascinantes no momento em que falam das coisas que fazem, conhecem ou em que estão interessadas.” – Peter F. Drucker.

Agora que já sabem o brutamontes inculto que o Kwan é (com muito gosto, como o gajo do pão Bimbo!), quero ver quantas vezes mais vêm visitar esta casa. Aguardo respostas. Provocatórias, claro! ;)

13 Comments:

At 9:40 PM, Blogger Bord@s said...

Xiii méne... e tu preocupas-te com o que os outros pensam..?

;)

 
At 9:51 PM, Blogger sofia. said...

É sempre bom aguardar respostas!...
E não têm todos de ser iguais, terás certamente muito do mar para contar ou ensinar, quantos o têm - só para emxemplo
Não conhecia a frase citada, mas é mesmo isso que acredito.

 
At 12:15 AM, Blogger marsalho said...

Tenho grandes dúvidas que alguém que nunca tenha lido saiba escrever bem; não me parece possível. Acredito que hoje não leias, mas acredito que tenhas lido no passado... fossem legendas de filmes ou bulas de medicamentos.

Quanto à frase do outro... xiiiii, conheço tanta, tanta gente desinteressante...

 
At 3:18 AM, Blogger t&v said...

bom, perante esta bela prosa, lá vou ter de me admirar também: como é que tu não lês e escreves tão bem? é que, como diz o marsalho, alguma coisa hás-de ter lido nalguma altura e espero que não tenham sido as belas das bulas que são chatas que se farta...

e, já agora, lamento discordar do economista erudito mas sim, o que não falta para aí é gente desinteressante. sobretudo se forem do género que quando começam a falar de si revelam um ego do tamanho do mundo. aí acho que prefiro mesmo algumas bulas...

 
At 12:29 PM, Blogger SonecasS said...

Kwan, eu sou das que vai continua a visitar esta “casa” ;)
Ora aqui vai a minha resposta (em nada provatória, espero!):
Comecemos pelo fim e pela frase do Peter Drucker. Um tipo assim é um verdadeiro privilegiado. Ou então contenta-se com pouco... É que eu já encontrei tantas pessoas desinteressantes... Que são uma seca a falar do que fazem. Que são uma seca a falar dos livros que (não?) lêem e dos filmes que (não?) vêem. Há pessoas interessantíssimas sem ser nada “cultas” (repara as aspas!) mas que tem uma história de vida fascinante. Ou tem uma imaginação fértil. Ou um jeito natural de brincar com as palavras...
E há pessoa que são de um desinteresse desesperante apesar da sua bagagem supostamente cultural... Há em particular uma espécie que odeio: os que se acham mais cultos que os outros, mais “iluminados”. Os que desdenham dos gostos dos outros. Ai, desses conheço tantos, infelizmente! Aqueles que debitam uma série de versos decorados. Uma série de nomes de realizadores...
Mas, calma: Ser "inculto" não é orgulho, Kwan! Pode é ser uma forma de elitismo-exibicionista. Será?
Bjs
Sónia
Agora uma pequena “provocação”: Eu também acho que a leitura pode ser um belo de indicador. Quem não lê um jornal, ou uma revista generalista, não está minimamente preocupado com o mundo, apenas com o próprio umbigo... Não?

 
At 1:38 PM, Blogger Margarida Atheling said...

Lamento mas não resultou! Vou continuar a passar por aqui.
Por acaso, talvez por ser visita recente, nem nunca tinha dito que escreves bem. Mas escreves muito bem, sim senhor! Às vezes, quando o fazes com coração - coisa rara nos homens -, escreves até muitíssimo bem!

Não acho que a leitura resulte sempre em qualidades literárias, mas admira-me um bocadinho que, lendo pouco, escrevas tão bem. Bom... pelo menos temos que admitir que tiraste grande proveito do que leste!

Quanto à cultura... é uma coisa muitíssimo mais ampla do que aquilo que é transmitido pelos livros, jornais, peças de teatro, pintura... E tu sabes bem disso.
E divertes-te por surpreender as pessoas, dizes que és "inculto e brutamontes" e depois mostras o contrário!
Gozas com os estereótipos. É isso!
Esta noite, por acaso, li uma crónica que falava da imagem típica dos surfistas e confesso que me fartei de rir.

Ah! Mas sempre te digo mais uma coisa: algumas das visitas marcadas no teu contador eram minhas. Cheguei a vir aqui para ouvir a música que cá tinhas. Agora mudaste e vou ter que ir à Fnac!
Esta ouvia-a todas as noites num Verão de há poucos anos.

 
At 2:33 PM, Blogger augustoM said...

Já li muito, mesmo muito, hoje leio pouco, mas penso muito mais.
Um abraço. Augusto

 
At 12:27 AM, Anonymous O Vizinho said...

Para se escrever bem não tem que se ser um intelectual, muito menos um pseudo-intelectual dos que vomitam nomes de conceituados autores desconhecidos e os citam como se da sagrada escritura se tratasse.
Também eu tento escrever o melhor que posso e sei, não por pretenciosismo mas por achar que um texto mal contruído acaba por perder o seu sentido e dispersar a nossa atenção em pormenores de forma e não no seu conteúdo.
Bom post.

 
At 2:44 AM, Blogger Kwan said...

.
Bord@s: Como foste o primeiro, quase que me enganaste. Quase que ia respondor a sério. ;)

\sofia: Dizem que "quem espera sempre alcança". Mas também dizem que "para cada homem há 7 mulheres". Por isso deve andar aí um gajo qualquer com 14!

marsalho: Realmente leio sempre as bulas dos medicamentos. Sou demasiado cuidadoso nessas coisas. Mas vê lá que sou tão inculto, que nem sabia que se chamavam assim. Eu costumo dizer "o papelinho". :)

t&v: Estavas a ir tão bem, assim caladinha... ;). Sabes que essas pessoas acabam por me divertir, quanto mais nao seja porque as provoco até à exaustão!

sonecass: Essas perguntas são retóricas, nao são? ;)

margarida: Topaste-me a milhas. Assim não vale.

augustom: No pensar é que está o ganho! Ou era no poupar..?

vizinho: Vá para dentro, vizinho. Vá para dentro. :)

Agora a sério. Obrigado pelos comentários, acho que já bati o meu record, que era o único objectivo deste post. :) Porque, como diria Nietzsche,... bolas, nunca li Nietzsche!

Agora MESMO a sério. Diverti-me muito com este post. Espero que voces também. Obrigado a todos pela participação.

 
At 1:16 AM, Anonymous guevara said...

mmmm...
acabei de ler Equador.

 
At 12:14 AM, Anonymous Anónimo said...

Ya!

 
At 11:47 PM, Blogger SeaWitch said...

Não te passa pela cabeça que o jeito para a escrita possa ser uma herança genética?

Eu, que nunca lia em Português, ando agora feita parva aqui presa ao que tu escreves e já não estou a gostar nada desta minha dependência obsessiva.

A mim não me convences com essa do 'brutamontes inculto' - o que tu queres é mimo e atenção.

 
At 11:36 PM, Blogger Natalie said...

Olá! Encontrei o seu blog por acaso, estava procurando pela palavra "desaculturado" para fazer um trabalho para a faculdade. E estou pasma com o que você escreve, se não é leitura nem cultura, então o que seria? dom? Enfim, só queria mesmo deixar registrada a minha admiração por tua escrita.

Um Abraço! Natalie

 

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